Pensar los vínculos sociales en Iberoamérica.
Lenguajes, experiencias y temporalidades (siglos XVI-XXI)
1-4 sept. 2020 Paris (Francia)

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O giro democrático e seus dilemas: as relações entre os discursos, conceitos e práticas políticas na América Latina do oitocentos e do novecentos e a percepção de suas permanências nos dias de hoje

 


Coordinadores

 Natalia Sobrevilla Perea (U. Kent)

Jorge Eduardo Myers (U. Quilmes)

Marco Antonio Pamplona (PUC-Rio)

 

Interessa-nos, com esse simpósio, explorar a relação entre discursos, conceitos e práticas que, em tempos de transformações vertiginosas - a Sattelzeit postulada por Koselleck (1750-1850) - experimentadas pelas estruturas semânticas em sua dimensão transatlântica, contribuem de modo acelerado para a ressignificação dos vocábulos políticos. Termos como “povo”, “cidadão/cidadania”, “civilização”, “república/republicanismo”, “democracia”, “liberal/liberalismo” e “socialismo”, foram atualizados constantemente em espaços temporais anteriores e posteriores aos significados em circulação. Partimos da convicção de que, se o giro republicano na historiografia dos discursos, conceitos e práticas políticas latino-americanas desenvolvidas na primeira metade do século XIX, permitiu uma importante renovação do nosso conhecimento a respeito desses mesmos discursos políticos, seria também muito produtivo para a historiografia explorar o “giro democrático” que se deu a partir dos anos intermediários do século XIX.

Para isso, propomos reunir nesse simpósio trabalhos que irão prestar uma atenção específica aos processos de ressignificação do termo “democracia” e do seu campo semântico afim (composto pelos termos indicados mais acima), aos seus usos e modulações de sentido nas distintas nações da América Latina, através de um arco temporal bastante extenso. Se a recepção de Tocqueville e autores afins contribuiu já para uma importante modulação nos vocabulários políticos em circulação na América Latina de meados do século XIX em diante, foram os movimentos políticos e sociais que sacudiram muitas nações do continente no momento das revoluções de 1848 (le moment 1848), os que constituíram o crisol em cujo interior se cunharam novos vocabulários e linguagens para expressar o político. Não apenas as linguagens democráticas conviveram com, e se sobrepuseram de modos bastante complexos às linguagens republicanas vigentes, variando de país a país, senão que, desde sua primeira articulação, foram submetidos a sometidos a dinâmicas bastante próprias e complexas, especificamente latino-americanas. Tais dinâmicas complexas se deram em função das exclusões raciais, étnicas e de gênero que definiam o ordenamento político vigente tanto nas repúblicas hispano-americanas quanto na monarquia brasileira.

Resgatar e tematizar este “giro democrático” nos discursos y práticas políticas latino-americanas ao longo do século XIX é uma parte de nossa proposta. A outra parte consiste em abrir o simpósio a um leque de olhares sobre o ulterior desenvolvimento dessa linguagem específica, em função das mudanças de regimes políticos decisivos, vivenciados em países como México, Brasil, Uruguai, Chile, Peru ou Argentina, etc., entre fins do século XIX e inícios do XX, com suas mutações e derivações, até chegar a épocas mais recentes, quando a própria prática democrática volta a ser posta em questão, como afirma Pierre Rosanvallon ao discutir as antinomias estruturantes do conceito nos dias de hoje. Nesse arco temporal ampliado, o conceito de “democracia” se transformou tanto mediante seu uso institucional em regimes baseados num sufrágio universal (com ou sem a restrição de gênero) e consignados a expandirem o campo de aplicação do concepto, quanto mediante a sua submissão a críticas radicais, como aquelas surgidas no período do entre guerras (as quais, no contexto latino-americano subtenderam a grande parte dos regimes autoritários vigentes até os anos de 1980).

Nos interstícios entre discurso e instituição, entre volitivo e racional e entre defesa e crítica, o conceito “democracia”, no seu uso latino-americano, experimentou várias mudanças – desde aquelas semelhantes ao que, a partir da teoria política em meados do século XX, buscou captar T. H. Marshall com sua noção de três tipos de cidadania, até aquelas outras mudanças que, em épocas mais recentes, tematizou Pierre Rosanvallon (apoiado sobretudo nos exemplos francês y anglo-saxão) em suas análises sobre a legitimidade democrática (imparcialidade, reflexividade, proximidade). É por este motivo, porque continuam sendo atualizados e ressignificados constantemente, que estamos propondo examinar também a sua presença em alguns dos debates contemporâneos (séculos XX e XXI), relacionando esses mesmos termos conceituais, com práticas políticas concretas recentes. Cremos, finalmente, que em um momento como o atual, quando a legitimidade de discursos e práticas que vêem no conceito de “democracia” um valor positivo, está sendo submetida a fortes embates em ambas as margens do Atlântico, a proposta deste nosso simpósio pode se tornar altamente relevante.

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